Por detrás das suas rugas enxergo tanta sabedoria. Esses olhos que, apesar de muito menos, ainda brilham radiantes quando recebem atenção. Seu cabelo invejável, grisalho, macio, cheio, sempre cheiroso. A voz rouca, pele escura, riso fácil, personalidade dura.

Seus sermões e reflexões sobre a vida. Todas as histórias do passado. Desejos para o futuro. O senhor sonha por mim, pelos seus filhos, pelos outros netos, pelo mundo inteiro. Se orgulha por nossos feitos, se entristece com nossa ausência, se renova com nossa vida.

Nove décadas de aprendizagem, 90 anos construindo uma família, deixando o maior legado que poderia. Brigou, ensinou, mostrou, provou, teimou, amou, errou, tentou de novo, acertou, fez sempre o melhor que pôde. E criou o que temos hoje.

Algumas horas atrás me parou na porta do banheiro pra dizer “Sabe, filha, eu tava aqui pensando…” (o senhor sempre está refletindo, observando, bom capricorniano que é!) “a vida é engraçada, não é?! A gente nasce e tudo o que tem são nossos pais. Depois nascem os irmãos, a família vai crescendo. Daqui a pouco, um casa, outro vai estudar fora, outro vai trabalhar longe, mais outro casa… Até que os pais ficam sozinhos de novo. Só que aí, todo mundo tá casado, e vêm os filhos desses filhos. A família não para mais de crescer! Lembra quando era só a gente e nossos pais? Agora tem os irmãos, os cunhados, os filhos e os sobrinhos, não é mesmo? Depois os pais morrem, e começa tudo de novo!” A vovó, sempre atenciosa, deu uma risadinha tímida e completou “é um ciclo, meu bem, a vida é esse ciclo maravilhoso! Não é, filha?”.

Que sorte a minha por ter vocês na minha vida, vô. A vida é mesmo engraçada. E ainda bem que a família cresce. Ainda bem que eu tenho esse privilégio da presença de vocês nessa comicidade da minha existência.

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