Mais uma vez, outro dia aparentemente comum. Acordei cedo, peguei meu ônibus, fiz as atividades que precisava na faculdade, almocei e peguei o ônibus de volta pra casa. Pensei que poderia descansar (talvez uns 15 minutos) antes de sair de de novo para ir para o treino. Acontece que algo diferente chamou a minha atenção: na esquina de casa, vi uma moça deficiente visual, que naturalmente andava em passos curtos e lentos. Não sabia seu nome, onde morava, e muito menos aonde pretendia chegar. Mas não consegui simplesmente ir embora e continuar sem saber.

Era um cruzamento, complicado de atravessar, então cheguei perto e ofereci ajuda. Não pude ver o brilho do seus olhos, mas na sua fala a felicidade e a gratidão eram nítidas, e ela não tentava disfarçar. A todo instante me agradecia, com a mais pura sinceridade. Para minha surpresa, ela me pediu também para que eu a levasse até o seu destino final, que era do outro lado da praça em que estávamos. Me disse o nome da rua e eu tentei lembrar como fazer para chegar lá de uma forma fácil, sem que exigisse muito dela. Seguimos caminho, em um braço eu carregava minha bolsa pesada; no outro, fazia força para conseguir dar o máximo de apoio possível. Naquela quarta-feira, era a Débora quem eu tinha prazer de ajudar.

Fiquei pensando: nas minhas condições, na minha velocidade, no meu ritmo, eu levaria no máximo 10 minutos para chegar naquele prédio para onde estávamos indo. Mas a personagem principal logicamente não era eu, e ela precisou de 30 minutos para percorrer o mesmo trajeto que eu demoraria um terço do tempo. Por esse motivo, eu, que antes estava adiantada – achando até queria poder descansar -, agora sabia que chegaria atrasada no treino. Só que, pra falar a verdade, isso não estava me incomodando nem um pouco. Muito pelo contrário, eu estava satisfeito com aquilo.

Débora me contou muito sobre sua vida, passou um ar de felicidade, de uma mulher realizada e que continuava correndo atrás do seu sonhos. Isso inspira, motiva, serve de incentivo e de admiração. Ela estava estudando para prestar vestibular, pois tinha muita vontade de cursar música. E ela queria minha ajuda: me pediu para que eu pesquisasse sobre a prova que ela teria que fazer e mandasse informações importantes para o seu e-mail.

Chegando no destino, ainda me fez mais um pedido. Era difícil para ela chegar até o banheiro, e depois encontrar a sua sala. Então solicitou que eu a acompanhasse até esses dois locais. Assim fiz, só me custaria mais alguns minutos e a recompensa viria na plena gratidão de alguém. Quando a levei até a sala, ela cumprimentou a todos os seus amigos e me apresentou a cada um deles. Cada um com sua peculiaridade. Com sua dificuldade. Com seu brilho próprio. Foi aí que percebi que ela queria, na verdade, que todos me vissem, que me cumprimentassem, que acreditassem que ela tinha feito uma nova amiga, assim como ela disse.

Trocamos nossos números de telefone e e-mail, me despedi, desejei uma boa aula e tomei meu rumo de volta para casa – quase correndo. Correndo, com pressa, e pensando no privilégio de poder fazer isso, de poder correr, de poder enxergar, e de poder oferecer uma lasquinha de um mundo diferente pra quem pode nos oferecer todo o seu mundo.

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