Assim como Brás Cubas opta por ser um defunto autor, e não o contrário, para poder ter o prazer e a liberdade de se expressar sem ser alvo de críticas e considerações, o ser humano constrói sua personalidade, em geral, com esse mesmo – e relativamente covarde – pensamento: ser socialmente aceito. Com isso, molda-se com a preocupação de se encaixar em padrões pré-estabelecidos e se afunda repetidamente em crises existenciais e de percepção clara de sua individualidade.

   É o que ocorre, por exemplo, com Macabéa, personagem de Clarice Lispector que não sabe nem mesmo se comunicar de maneira decente por não entender quem é ela mesma ou do que ela faz parte. Ainda que se adaptar a circunstâncias variadas seja uma grande qualidade do indivíduo, não se pode permitir que esse dom seja arruinado e transformado na perda da identidade própria. O lamentável problema dessa postura é acentuado quando se nota que a aceitação dos outros dificilmente será estabilizada. Isso porque a mudança de pessoas, grupos, conceitos e opiniões é constante e, portanto, é ilógico que estabelecer uma personalidade fixa seja a solução de um contratempo em movimento.

   Esse caminho, infelizmente seguido pela grande maioria das pessoas, costuma levá-las a uma vida regada do sentimento de não pertencimento a nenhum grupo, perfil ou padrão e, com isso, pode resultar em desafios pessoais ainda maiores, como distúrbios psicológicos e comportamentais. Por outro lado, mas não menos preocupante, engessar o que se espera da sociedade contribui negativamente para aflorar ideologias extremistas, preconceituosas e absurdamente radicais, caso de movimentos similares à Ku Klux Klan ou ao nazifascismo. Desse modo, embora seja de fato valioso saber con-viver, como disse Drummond, e, assim, enaltecer a maleabilidade do indivíduo em distintas ocorrências, a beleza está em ser flexível sem se permitir perder a essência e a individualidade.

   Caso Brás tivesse escrito suas memórias antes do falecimento, muito provavelmente seria mira de árduas maledicências por não atender às expectativas da maioria. É nesse mesmo impasse que vive diariamente a sociedade, composta por indivíduos perdidos em sua própria consciência devido a crises de não saber quem são, ao que pertencem e aonde pretendem chegar.

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