Essa semana foi nosso dia. E eu fugi de escrever sobre nós, durante ele. Pensei várias vezes, é claro. Mas me contive. Segurei as pontas, mais uma vez. Talvez por achar que você não merecia. A gente não tinha mais porquê, pensei. E de fato não tem mesmo. Aí deixei passar. Porque eu certamente escreveria sobre amor, se ele estivesse sendo cultivado ainda naquele dia. Mas agora devo escrever sobre raiva. Decepção, talvez. Não sei ao certo dizer o que tenho sentido. Um turbilhão de sensações toma conta dos meus instintos. Já aprendi que ódio não se opõe ao amor. Seu antônimo é, na verdade, a indiferença. Mas não quero que ela venha. Me dói a alma pensar que não sentir seja a cura para essa dor.

   Você bem sabe que eu não acredito que amores tenham fim. Sempre fui sincera quando dizia que embora o amor possa mudar, acabar ele não vai. E era mesmo verdade, te juro. Só que hoje já não sei se tal veracidade se dava graças a mim: nunca quis me permitir abandonar meus amores. É que amar me preenche. Sei domar esses amores, e assim são meu alimento diário. Me sacio e os rego. Florescem. Mantenho meu jardim em cores, mesmo em meio aos frios da existência. Só não esperava congelar assim de repente.

   Queria entender como você pôde, em tão pouco tempo, estruturar essa tempestade devastadora por dentro de mim. As árvores que costumavam dar frutos em abundância, de um instante a outro desapareceram. Uma branca paisagem de gelo tomou conta e soterrou o que antes costumava colorir minha rotina. Atraia pássaros, calores, cores. Amores. Agora trago um indefinido sentimento de dor. Dor essa que afunda na nevasca instável deixada pelo seu egoísmo, que por aqui passou. Sei que sempre esteve aqui. E eu, cega pelas flores, deixei ficar. Permiti a queda de temperatura que veio com você. Dei espaço à infertilidade do seu solo. Acreditei estar regando meu jardim, cultivando meus amores. Contemplei florescimentos que me pareciam sinceros, sim. Mas vejo de súbito que dei as costas para a avalanche que vinha por trás enquanto eu apreciava os poucos ramos coloridos à nossa frente. Supervalorizei cores fracas. Inocente, permiti que o calor da estabilidade fosse aos poucos e repentinamente engolido pela neve vinda com suas razões. Congelou. Congelamos. Congelei. Talvez.

   Por enquanto não, acho eu. Tô morna, por enquanto. Desaquecendo pausadamente. Enquanto planto em outro canto minhas mais fortes cores. É que eu não consigo – ainda bem – ser gelo por inteiro, como faz você. Sou imune a essa racionalidade que impede de ver o verão na sua fervura máxima. Que bom. Devo estar agora as quatro estações. Diariamente vejo frios, flores, folhas, calores. Passo por essa corda bamba de estações sem saber em qual estar. Você simultaneamente leva a neve para outro lugar. Disfarçado de primavera, você vai. Enquanto isso, busco meu equilíbrio quase perfeito. E luto para não encontrá-lo de fato. Busco de volta meus amores. Alimentos. Devo dizer adeus, eu sei. Te carrego junto comigo, esperando o momento certo para cultivar mais uma vez o que teu branco trouxe até aqui. Quero vê-lo colorir meu ser. Conhecer novas cores. Sabores. Florescer mais uma vez.

   Você não soube apreciar as paisagens que em mim construi. Imagens que com tanto cuidado pintei. Foram vistas sem atenção e jogadas para um outro lugar qualquer. Estão por aí. Que bom. Pelos caminhos que passo logo tornarei a vê-las. Ainda ofuscadas de branco. Manchadas de raiva. Pingadas de tristeza. Mas logo alguma estação me leva até elas e nossas cores triunfam. O calor há de voltar, mais forte. Derretendo o que de neve ainda tiver. Em mim. Seu frio apagando um outro verão por aí me inunda de dor, não nego. Mas vejo que assim se afasta do meu, abre espaço para as minhas flores. Belos frutos soterrados vão voltar. Minhas cores voltam a, enfim, brilhar.

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