assim como as sombras da caverna de platão nos encarceram e impedem-nos de conhecer a realidade, o conformismo, a covardia e os padrões impostos socialmente bloqueiam nossa saída para longe da menoridade.

 

essa, segundo immanuel kant, seria conquistada através do esclarecimento, que, por sua vez, possibilitaria o pensamento livre e a ausência de tutela.

 

é curioso que, no entanto, em um cenário de regras imaginárias, embora tenhamos alcançado, em grande parte, a tão sonhada liberdade de expressão, ironicamente entramos em um redemoinho de prisões e prisioneiros que se fundem e afundam gradativa e lentamente de encontro à efetiva alforria da menoridade.

 

desse modo, à medida que a modernidade se liquefaz e aparenta estar em constante adaptação ao movimento ininterrupto do corpo social, cada um de nós – de maneira forçada, inconsequente e praticamente inconsciente – se encaixa na banal padronização e perde a árdua batalha da libertação.

 

o teórico advento da ciência tecnológica e avanço da razão provocam, portanto, considerável desilusão e retrocesso dos rumos seguidos para o naufrágio do pensamento independente.

 

da mesma forma que carlos drummond de andrade demonstra, em poemas como “a máquina do mundo”, não mais ter fé no progresso trazido pela inovação, notamos, angustiados, a dificuldade em crer em benefícios trazidos pela conformidade com a uniformização de identidades e o confinamento de pensamentos.

 

é ferida, dessa maneira, a utopia de valorização da razão, pois aquilo que movimentou o século XVIII, algumas décadas depois tornou-se um entrave à nossa libertação.

 

gradativamente, caminhamos, por conseguinte, em um círculo vicioso na busca do encaixe perfeito em exagerados moldes existentes ou, ainda pior, em direção ao soterramento da própria individualidade.

 

as sombras assumem o protagonismo,

tomam a frente de nossa existência,

obstruem o conhecimento real e, enfim,

levam cada alma para muito distante da soltura da menoridade.

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