19 de junho de 2019

Clássicos: Jorge Ben e a Tábua de Esmeralda

Em um momento em que a cultura nacional e popular vem sendo deixada de lado em meio a uma revolução passiva que a substitui por fórmulas enlatadas e feitas a nível industrial vindas, principalmente, dos EUA, sempre convém enaltecer os grandes artistas das nossas terras.

Poucos álbuns brasileiros conseguiram expressar a síntese entre o espírito do experimentalismo e psicodelia do final dos anos 60 e início dos 70 e a música brasileira popular, em suas variações, como A Tábua de Esmeralda. O icônico disco do mestre Jorge Ben se tornou um clássico da MPB e mistura em seu conteúdo elementos de metafísica esotérica, do cristianismo, da cultura africana e os típicos da nossa nacionalidade.

Nos início dos anos 70, o Brasil vivia em uma ditadura sanguinária e, no plano internacional, o ocidente se deparava com a dura realidade da guerra do Vietnã – a guerra de rapina imperialista. Muitos artistas da época, devido à censura preferiram relegar a capacidade imaginativa de suas composições para um mundo fantástico ou divino.

A temática escolhida por Jorge foi a alquimia e o seu princípio é a transformação da consciência do homem: do estágio de ignorância para o estágio de sabedoria – a ‘iluminação’ típica do pensamento metafísico, desde Platão até Santo Agostinho. O tema ganharia no futuro seu espaço mesmo na cultura geek.

Na capa do álbum estão os símbolos da alquimia achados na tumba de Nicolas Flamel, obscuro alquimista francês, da Igreja dos Santos Inocentes em Paris. A Tábua de Esmeralda, reza a lenda, foi encontrada no túmulo de Hermes Trismegisto e continha as lições do “conhecimento universal” e, como ninguém viu a tal Tábua, o que se conhece é seu conteúdo. A primeira faixa abre o disco nessa tônica.

A letra da segunda faixa do lado A brinca com uma ideia simples, uma gravata usada por um homem, que por acaso é Paracelso, famoso alquimista suíço, pai da toxicologia moderna. A faixa ‘Namorado da viúva’, apesar de parecer despretensiosa, é provável que seja uma referência a Nicolas Flamel e seu casamento com Dame Perenelle. A penúltima faixa do lado B é dedicada ao faraó Hermes Trismegisto, epicentro de toda narrativa do mito e do tema do álbum.
A influência cristã aparece na faixa, que é talvez uma das mais psicodélicas, ‘Errare humanum est’ (“errar é humano, persistir no erro é diabólico”), onde fica a dubiedade entre o gnosticismo teísta e as obscuras teorias ufólogas, bem como na ‘Brother’ – com sua forma gospel, conferindo um tom afro-estadunidense à sequência. Destaque para composições como ‘Zumbi’, um primoroso ode ao grande revolucionário libertador de escravos e uma homenagem ao continente africano e sua cara herança cultural.

As faixas que no conteúdo expressam mais o espírito tupiniquim não são menos magníficas: a levada maliciosa e alegre de ‘Menina mulher da pele preta’, as quase pinceladas de pintura das paisagens brasileiras em ‘Eu vou torcer’ e ‘Magnólia’ – que, dizem, é em homenagem a filha que nosso compositor esperava, por isso ela vem em uma nave maternal “doirada”, com forro de veludo rosa.

 A soma da experimentação da época, que concedia um grande gama de alternativas à forma dos arranjos, unida à sonoridade única do samba-rock de Jorge que já era consagrada, resultou em um disco repleto de surpresas no qual, é possível dizer, não há só uma música ruim.

Inspiradíssimo nas composições e conseguindo misturar a mística esotérica e cristã, além dos elementos africanos e brasileiros, no retrato dessas terras com inventividade ímpar, Jorge Ben nos dá uma obra que é, de certo, atemporal. O disco reflete um aspecto da consciência de um tempo conturbado e repleto de acontecimentos e que deixou na música brasileira, notáveis feitos. É um clássico de um dos maiores compositores e artistas da nossa cultura.

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Entretenimento, Musica 0 Replies to “Clássicos: Jorge Ben e a Tábua de Esmeralda”