Casa 286A

– Você tem certeza disso?

– Certeza mesmo, eu não tenho, me parece uma maluquice sem tamanho, na verdade me surpreende você não me apoiar nisso, é uma maluquice digna de você.

– Epa, olha como você fala de mim, Pedro, maluquice é uma coisa, mas você quer invadir a casa de alguém, isso lá é ideia que se tenha?

– Benja, confia em mim, vai dar certo, se não der, o que muda? Vou continuar aqui na mesma, e isso é tudo que você diz pra eu não fazer todos os dias.

Pedro parecia extremamente animado com a ideia, estava sentado na poltrona de sua sala e mexia a perna sem parar, como alguém que tomou litros de café, já Benjamin estava um pouco indecifrável, olhava fixamente pro nada, ele estava sentado na poltrona do lado, e estava imóvel.

– Sério, fala alguma coisa, você está me deixando nervoso.

Benjamin se levantou, foi em direção ao bar, pegou uma garrafa de Maker’s Mark que estava aberta e dois copos, serviu um trago em cada copo, levou um pro Pedro, brindaram e beberam como deve ser, respirou, seu braço direito segurava o cotovelo do esquerdo que por sua vez segura o copo.

– Se você vai mesmo fazer essa loucura, porque sim, eu acho uma loucura, temos que ver como vamos fazer isso funcionar.

– Isso!

Pedro deu um soco no braço da poltrona junto com a exclamação.

– Sabia que você não ia dar pra trás nessa.

– Eu não ia, porém, que fique claro, eu acho maluquice, as chances dela gostar são poucas, não gosto de corromper as pessoas, e credo, você está me lembrando você mesmo no colegial, vamos se acalmar aí.

Eles riram e saíram da sala, Pedro estava vestido como de costume, camiseta, jeans e tênis, Benjamin estava com roupa de alguém que acabou de sair da academia, Pedro abriu o closet e pegou uma jaqueta de couro com capuz de moletom e eles saíram.

– Pra quem você está ligando?

– Estou fazendo meu trabalho né Pedro, prevenindo que você seja preso, espera um minuto.

Eles estavam no hall do prédio esperando o elevador, Benja se distanciou começou a gesticular e parecia ligar pra muitas pessoas, depois de uns dez minutos parece ter resolvido tudo, o elevador tinha subido e descido muitas vezes.

– E o que deu?

– Vai funcionar assim, sua entrada no condomínio está liberada, não vai ter policiamento nas ruas de lá por alguns minutos, ou seja, estacione o carro, a casa é a 286A, suba as escadas, ela não tem olho mágico e não costuma ficar olhando as câmeras, liguei pra ela e disse que eu iria visita-la, umas 22:00, resumindo, eu to torcendo por você, e você está atrasado.

– Eu amo você, Benja, mas depois que tudo isso rolar, vai me dizer onde arranjou contatos na polícia e no condomínio.

Benja revirou os olhos e mexeu a mão, impaciente, como se aquela pergunta fosse obvia demais.

– Você acha mesmo, que você teria todo esse dinheiro, se eu não tivesse arranjado todos os meus contatos? Você dá mais trabalho que filho as vezes.

Pedro abriu o sorriso, abraçou o Benja, deu um beijo na testa dele, e entrou no elevador bem rápido, parecia até que não tinha mais medo, não, pera, acho que falei cedo demais, ele segurou forte no ferro de segurança do elevador, o coração acelerou, tudo bem, era o mesmo Pedro de sempre, o elevador chegou no estacionamento, ainda meio tonto, Pedro entrou no carro, respirou, e saiu, foi em direção a loucura que pretendia. Acelerava mais que o normal, o coração quase saia pela boca, o visual de concreto ia se despedindo aos poucos, conforme ele se distanciava de sua casa, dessa vez decidiu não ligar o rádio, achava que poderia atrapalha-lo, chegara ao portão do condomínio.

– Boa noite, seu nome?

– Meu nome é Benjamin Girani, vou até o 286A.

– Um minuto por favor…

Nessa hora, me pergunto como o porteiro não ouviu o coração do Pedro batendo.

– Tudo bem senhor Benjamin, pode entrar.

O porteiro disse isso com um sorriso de canto de boca, parecia que não tinha engolido aquela nova identidade, Pedro entrou, foi pelas ruas do condomínio, não era longe, logo chegou, estacionou o carro, respirou, bateu no volante, no rosto, saiu do carro, foi até a porta da casa 286A, apertou a campainha.

– Só um minuto Benja, já vou.

Respirou, pensou em desistir, milhões de vezes, mas agora já era tarde demais, estava tremendo, o que será que aconteceria daqui alguns segundos? Ele achava que não deveria estar ali, tinha a certeza que não tinha sido uma boa ideia, achava que sempre que pensava com o coração dava tudo errado, estava prestes a descobrir se poderia ter esperança ou se dali em diante seguiria por um caminho que teimava em negar todo esse tempo, ouvi o virar das chaves, era agora ou nunca.

– Benja que saudade que eu….

Ela abriu a porta, arregalou os olhos.

– Pedro!

– Helena.

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