16 de agosto de 2019

Um demônio

Existe um demônio
Ele é um tanto disforme
Ele está sempre a minha espreita
E nunca deseja meu fim
Às vezes até o acho familiar
A seiva que me envenena é a fonte de seu prazer
Mas quantos podem negá-la?
Até mesmo belas coisas podem surgir de sua presença
E ainda há quem só consiga inspiração em tal companhia.

As vezes ele bebe das mais odiosas formas
Das lembranças repassadas e ressentimentos
Da perversão ou do pecado
Do ódio gratuito e da explosão
Ou mesmo da risada consternada que desdenha de forma tola da dor que ele causa.

Um grande artista já disse que a prosa deve ser leve, é compreensível
Não duvido que seja difícil velar a escuridão
Mas vivo num mundo em que a ilusão é banalizada e também artigo de fé ou de luxo.
É mais fácil virar para o outro lado.
Pro inferno com os pensamentos puros e a resignação revestida de êxtase.

A motivação do espírito é sempre bem-vinda
Mas, as vezes, o que outros como eu procuram é um espelho que reflita o exílio dum indivíduo, mas, ao mesmo tempo, mais do que o indivíduo sozinho.

Porém, no fim das contas
Também sabemos que a existência de sua companhia indesejada não está na podridão do corpo
E expulsá-lo, assim, não é tarefa simples
Por isso perdemos para a sua sede, mulheres e homens honrados
Quem pode julgá-los? Só nos resta odiar-lo e odiar as suas raízes.

Acontece que o demônio, como toda entidade que tem asas brancas ou chifres, não passa de um fantasma do espírito
E não é possível extirpá-lo sem antes travar uma grande batalha
Uma batalha contra os pregadores e defensores do pecado original
Para eles nós é que somos maldições
Pouco importam as formas que nos descrevem
O peso de nosso ódio e de nossa frieza é a cruz que queima e ilumina sua Igreja
A Igreja daqueles que advogam que não há esperança de purificação real
Daqueles que viram nas raízes do demônio a sua fortaleza e a sua graça.


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Literatura, Poesia 0 Replies to “Um demônio”