31 de maio de 2017

A vitória da propaganda ocidental

Como diz o ditado popular, a história é contada pelos vencedores.

É fato de que o capitalismo liberal venceu o mundo. Com os Aliados vencendo a besta nazista, só restava o último inimigo: a União Soviética. Há muita história no que se seguiu, mas é fato de que a Guerra Fria foi a continuação do que não ficou resolvido na Segunda Grande Guerra. Porém o capitalismo ocidental saiu vencedor – a União Soviética caiu, bem como as democracias populares orientais, e os EUA e potências europeias receberam o mundo em seus braços.

Nesse contexto vem a criação da categoria de totalitarismo, por Hannah Arendt, no pós-guerras e a herança da lírica orwelliana de distopias; a propaganda criou no imaginário popular ocidental, de que as alternativas que existiram e que ainda surgem contra o capitalismo liberal são apenas “ditaduras” e regimes “totalitários”. Ainda que a categoria de totalitarismo já esteja sem prestígio nas discussões acadêmicas sobre ciência política e sociologia, ainda está muito viva na retórica ideológica do modo de vida ocidental.

Por isso vemos muitas vezes os incautos reproduzirem, até num processo inconsciente, o discurso dominante de que qualquer governante que se proponha a ser minimamente popular pode ser considerado um ditador inescrupuloso, com sede insaciável de poder (é quase como se os governantes do primeiro mundo odiassem o poder, só o fazem por mera formalidade). Não é levado em consideração o que esse governo faz pelo seu povo se ele não segue a cartilha sagrada da alternância de poder do viés liberal. Ele é um ditador e precisa cair. Foi assim com Gadhaffi – quando a Líbia era o país mais desenvolvido da África, com o melhor IDH e agora é terra de ninguém, antro dos grupos terroristas. Não se olha o conteúdo dos governos ‘populistas’, mas sim sua forma mais óbvia e estigmatizada.

Portanto, defender qualquer alternativa política à democracia liberal é digna de infâmia.

É irônico pensar em como ficou conhecido como bastião do melhor modo de se viver o país de Roosevelt, que afirmava que os alemães deveriam ser castrados para que algo como o nazismo nunca mais acontecesse e que acreditava que “nove em cada dez índios eram bandidos e que não desejaria conhecer o décimo”. O país que nesse mesmo período tinha institucionalizado o racismo mais cruel para a população negra e nos dias de hoje essa mesma raça está nos presídios compondo número maior do que quando eram escravizados. Em um país como a Inglaterra de Churchill – lembram dele? Que ficou conhecido na história como grande estadista, homem de célebres citações e que obviamente não recebeu a coroa de ditador. Pois bem, esse era o homem do país que construiu campos de concentração para os comunistas e que provocou o genocídio de milhões de indianos. Podemos olhar para nosso próprio quintal;  nosso país que conseguiu a democracia recentemente, mas que nem por isso deixa de produzir um genocídio indígena e massacre de camponeses por latifundiários e pelo extermínio de jovens pobres e negros nas periferias, resultado da guerra contra às drogas (pois é, nos EUA também). Ou mesmo quando a população é violentamente reprimida em protestos pela defesa de seus poucos direitos – de França à Chile.

Por que dizemos isso? Para que se acabe esse pensamento tacanho e maniqueísta de que tudo que surge além da democracia capitalista ocidental sejam apenas ditaduras terríveis onde a preciosa liberdade é ferida. Não. Vivemos em um mundo em que a democracia e liberdade dos povos “evoluídos” ocidentais existem à custa da exploração e sacrifício de vidas do terceiro mundo. E quando esses povos seguem o caminho de uma alternativa a esse sistema cruel, recebem a acusação de “inimigos da democracia e atrasados”. Chega de hipocrisia dos vencedores. Chega de fuga da história.

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Opinião, Sociedade 0 Replies to “A vitória da propaganda ocidental”