6 de agosto de 2016

Como a crise internacional afeta o Brasil?

Muito se fala de nossa crise econômica relacionada aos escândalos de corrupção envolvidos na Lava-jato. Mas seria só isso? E a crise internacional, o que tem a ver? Farei um breve comentário sobre outra perspectiva sobre esses problemas.

Como quem vai emitir esta mensagem é da área de Comércio Exterior, esse texto tratará um pouco sobre as complexas questões que envolvem nosso país no cenário internacional, sendo uma breve passada sobre a origem de nossa agonia e os caminhos que nos falta trilhar. Obviamente não pretende ser um trabalho acadêmico, mas apenas um comentário sobre um ponto de vista da perspectiva econômica; além do senso comum de que estamos em crise basicamente pelos escândalos de corrupção, assim mostrando outros lados dessa história.

O fato histórico de que éramos colônias de exploração, além dos outros países da América Latina, Ásia e África, muitos que irão ler esse texto já sabem, e conhecem inclusive as chagas que essa dominação econômica e política causou nos países explorados. Após a independência de nossas metrópoles colonialistas, nos tornávamos países “soberanos” e assim, passávamos a cuidar de nossas finanças e perspectivas para o futuro. No entanto, algumas cruzes carregaríamos até os dias atuais: muitas de nossas riquezas naturais foram espoliadas para financiar as indústrias dos países desenvolvidos, a contração de dívidas externas – custo de nossa independência (pois é) – e, a pior parte talvez, o surgimento de uma elite patrimonialista que dominaria nossa política. E qual o problema disso? Bom, o problema é que o perfil de ganhos à curto prazo através de políticas de juros altos e vendas das riquezas naturais e públicas para o estrangeiro, estaria escrita no DNA dessa elite desde a proclamação da República até os dias atuais. Isso resulta em ausência de um projeto de desenvolvimento soberano, sendo o destino de países com essa herança, se manterem como meros fornecedores de insumos que os países desenvolvidos necessitam e nada mais.

Após o fim da política de exploração das colônias e independência dos Estados, nasce a ideia de países soberanos, condicionante da concorrência, a niveladora extrema das novas relações de produção e trocas de bens e serviços. Os teóricos clássicos de economia como Adam Smith preconizavam que as nações deveriam produzir o que mais lhe dessem vantagem no comércio exterior e com as ideias de livre comércio internacional nasce o tal ”mundo globalizado”, com sua famosa divisão internacional do trabalho. Ou seja, cada país tem um papel específico no comércio internacional como fornecedor de bens específicos.

Essa divisão de mercados cria o ambiente em que cada país exporta, na maioria das vezes, o que mais lhe abunda e importa o que necessita, porém também existe agora a necessidade de haver uma moeda comum que faça o intermédio das trocas entre os países. O problema que isso traz é que muitos países conseguem divisas externas basicamente com a venda de suas mercadorias exportadoras principais e, como é na lei de mercado, nem sempre a demanda por tais bens é alta, o que afeta suas vendas, causando uma baixa quantidade de moeda estrangeira, aumentando o preço dessa moeda e, por fim, causando a famigerada inflação de custo.

noticia_103956Isso é o que acontece com muitos países. A Venezuela, por exemplo, passa uma crise abissal devido ao preço do petróleo ter caído significativamente e, sendo sua única fonte de sustento para obtenção de remessas estrangeiras, acabou por elevar a inflação do país a números monstruosos. Mas, estranha o fato de que no Brasil ocorre movimento semelhante, apesar de obviamente, com proporções menores? Pelo fator de nossas commodities não venderem tanto, em parte pela crise internacional, causa o mesmo problema aqui, lembrando que nossa inflação é causada por isso e não por demanda, como muitos homens públicos, devido a interesses diversos (e as vezes obscuros) afirmam. Somado a crise política institucional e falta de reação da indústria, não há qualquer sinal de retomada da economia.

Mas tal fato é característico de países da América Latina, que como o nosso, também foram colônias de exploração. E por que isso acontece? Uma das razões é a supracitada divisão internacional do mundo globalizado, jogo em que entramos de corpo e alma e, mesmo hoje, estamos à mercê das primeiras condições impostas, como a forte dependência de mercados externos. Qual seria o trunfo para reverter esse jogo? O principal é o desenvolvimento de uma forte indústria nacional que elimine boa parte da nossa dependência externa, projeto que nenhum político profissional propõe em suas propagandas eleitorais.

Há de lembrar que talvez o último projeto de longo prazo de desenvolvimento nacional foi o de Getúlio Vargas, criador da PETROBRAS, sendo talvez um dos que mais defendeu os interesses nacionais. Autoritário, como se conhece, de acordo com as circunstâncias, não aceitava interferência nem de organizações de esquerda (como os comunistas), nem de direita (como integralistas, lacerdistas ou liberais). Figura política polêmica e controversa (cabe muito estudo para entender esse período) que enfrentou inúmeros interesses dessa elite patrimonialista e, mesmo com sua beligerância política, em um dado momento, acabou perdendo essa guerra. E apesar de alguns argumentarem que na ditadura militar obtivemos alguma espécie de protecionismo e desenvolvimento nacional, esse foi modesto e, um dos legados do regime, é basicamente, ,muitas rodovias e poucas ferrovias, para atender o mercado automobilístico nascente, que atualmente aumenta o custo dos nossos produtos; além de uma dívida enorme que demorou para ser atenuada e agora aumenta novamente.

O que veio nos anos seguintes foi pior ainda, o Consenso de Washington. “Meras reuniões” em que teóricos liberais discutiam tipos de políticas de abertura de mercados e privatização de empresas estatais, se transformaram em condições impostas pelo FMI (Condições que futuramente, de modo cruel e irônico, o próprio FMI reconheceria que não soluciona crise e gera ainda mais recessão) para a concessão de empréstimos para países como o nosso, aceito de bom grado pelos governos Collor e FHC, além de deixar de herança a desindustrialização do Brasil, algo que nem nos governos petistas pode ser revertido.

 

GNN
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Em nossa pátria nunca foi pensado um projeto nacional de longo prazo visando a criação de uma indústria nacional, no mínimo, autônoma que possibilitasse ganhos de mercado, que nos protegeriam, em certa medida, das grandes crises mundiais. Por consequência disto, ficaríamos sempre a mercê das leis de demanda do mercado internacional por nossas commodities, mercadorias de baixo valor agregado, dos quais também não temos exclusividade no mundo. Algumas pesquisas mostram que nações com maiores propriedades intelectuais e grande modernização da economia, como as capitalistas EUA e Japão e a socialista China, possuem mais da metade de seus cientistas nas grandes empresas e não apenas nas universidades, como é o caso no Brasil. A criação dos BRICS foi um passo importante na luta por essa soberania junto com outro países que vivem o mesmo drama econômico do Brasil.

A ideia de soberania e independência econômica para todos os países do mundo é certamente uma utopia devido a lógica de dependência e exploração do sistema econômico mundial, mas não é impossível para o Brasil alcançar uma posição favorável dentro do cenário do comércio internacional. A China, há não mais que 50 anos atrás, era um país com uma massa enorme de analfabetos, uma indústria destruída e nenhuma soberania antes de sua revolução. Atualmente é um país soberano e um dos mais desenvolvidos, com níveis de educação invejáveis, estrutura altamente modernizada, economia sólida e indústria nacional moderna e autônoma, chegando a assustar mesmo até a maior potência imperial do mundo, os Estados Unidos.

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Opinião, Sociedade 0 Replies to “Como a crise internacional afeta o Brasil?”