9 de agosto de 2019

Gambino pt. 1: Feels like summer

Temas como amor, desilusão, problemas de relacionamento, prazeres momentâneos e mensagens motivacionais, são, sem sombra de dúvidas, os mais recorrentes no conteúdo da música e arte em geral, presentes no mainstream.

Certamente esses temas atingem muitas pessoas, são universais e, portanto, é uma fórmula que ‘dá certo’ ao mesmo tempo que é verdadeira, pela sua compreensão dos sentimentos de muitos. No entanto, é importante valorizar os artistas que, apesar de suas limitações materiais impostas pela indústria ou pelo senso comum, se arriscam a fugir da uniformidade e tratar de temáticas complicadas, mas fundamentais.

Childish Gambino, o nome artístico de Donald Glover, é um desses nomes e dedicarei aqui algumas palavras a esse grande artista, em texto dividido em duas partes: uma sobre o clipe e outra sobre um de seus álbuns.

No ano passado, o incrível clipe This is America teve uma grande repercussão nas redes sociais e surgiram inúmeros vídeos no youtube explicando as referências e analisando o vídeo que, certamente, possui muitas camadas e referências que só um olhar atento pode identificar.

Mas outra obra audiovisual do artista, que não alcançou a mesma repercussão do primeiro clipe, merece destaque: Feels like summer. Nesse clipe, que a primeira vista pode não aparentar, mas também possui a mesma complexidade do supracitado e trata de temas também espinhosos. 

Neste, começando com uma porta sendo aberta em meio a escuridão, podendo ter tanto uma relação de ‘interior’, do sujeito ou objeto, mas também podendo ser uma referência a justamente ao fim do clipe This is America

Reprodução/youtube

O refrão começa com uma mensagem clara: o aquecimento global. Que, em tempos que temos que falar o óbvio, é um problema real, apesar da onda crescente de negacionistas. 

Toda essa atmosfera, que inspira ao mesmo tempo um sentimento de calma e abrigo (em relação ao This is America), distópico (com as cores dos raios de sol tendo forte impressão) e relativamente apático e melancólico, é cortada para um plano escuro, que representaria o interior (ou o estado de espírito) de Glover.

Nesse momento em que ele fecha o olho, é mostrado, na sequência, o rapper Kid Cudi que, como é sabido, passa por problemas de saúde – têm lutado anos contra a depressão, chegando a admitir que tinha vergonha de falar sobre; o rapper Kanye West, assumido trumpista e revisionista sobre a escravidão, sendo abraçado por Michelle Obama (a ironia é impagável, no entanto, Obama e sua esposa tampouco são dignos de admiração); Beyoncé aparece com uma camiseta com o nome de Fredo Santana, rapper morto após overdose de purple drink, droga que era viciado.

A seguir, é mostrada a cena que talvez seja uma das mais enigmáticas, Martin Luther King sentado em uma cadeira tomando sorvete: ele larga o sorvete ao lado e enfia as mãos no bolso. O sorvete derrete rápido (referência ao aquecimento global?) e possui duas cores distintas – talvez uma referência a XXXTentacion, rapper assassinado que evoca questões como abusos contra as mulheres, violência e as frequentes mortes da população negra nos EUA.

A grande sacada do clipe é que, apesar dos vários temas pincelados por Gambino, sendo o mais aparente a do aquecimento global – que recentemente com mais intensidade vêm sendo negado por conspiracionistas de toda espécie, a dizer, também nos trópicos – a maioria dos que assistem o clipe não prestam atenção na letra, distraídos pela quantidade de artistas ‘brincando’ nas imagens, provando o seu ponto de que as infantilidades e superficialidades das celebridades, chamam mais atenção do que problemas de maior importância. 

Pode ser que Gambino também queria passar uma mensagem aos próprios rappers que ele retrata no clipe: aceitam viver como ‘crianças’ brincando e atendendo a um modelo de vida que é vendido para o público para atender um mercado, enquanto não se preocupam com problemas graves como: depressão, abuso de drogas, genocídio contra os negros, etc.

Glover coloca claramente alguns artistas em posição mais prestigiadas, do seu ponto de vista como Rihanna, Azealia Banks, Outkast e reverencia lendas como Michael Jackson e Whitney Houston, em relação a outros em que há uma crítica evidente, enquanto faz uma crítica as atitudes e preferências da indústria por uns em detrimento de outros.

A obra inspira um sentimento de melancolia perante a problemas que são universais e só podem ser resolvidos de modo coletivo, mas que são negligenciados pelas classes dominantes em prol de interesses escusos; aquele sentimento de quem sabe que um mundo novo pode (e deve) nascer desse mundo decadente, mas que às vezes se sente sozinho nesse caminho. E, mesmo assim, Glover não perde a esperança da mudança que, apesar do mundo parecer o mesmo, não é o mesmo, no final das contas. As mudanças existem e sempre vão existir, cabe a quem é atingido por essa mensagem tomar as rédeas desse destino.

Não cabe aqui, esgotar todas as referências da obra, que são várias, mas sim destrinchar um pouco seu conteúdo e prestar homenagem a esse belo trabalho e o que significa nos dias atuais. Certamente é uma obra audiovisual que vale a pena ser assistida várias vezes e, vale mencionar, o trabalho do magnífico desenhista Justin Richburg, que encontrou na arte e nos cuidados de sua mãe, uma forma de lidar com a esquizofrenia.

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Opinião 0 Replies to “Gambino pt. 1: Feels like summer”