4 de junho de 2016

O inferno são os outros?

Atualmente vivemos uma era onde a tecnologia impera nas relações sociais. Muitas pessoas passam a maior parte do tempo se comunicando através de redes sociais e, quando se encontram, conversam sobre assuntos relacionados ou discutidos nesses mesmos espaços, isso quando não passam a maior parte do tempo no celular, mesmo estando na companhia de outra pessoa. Como toda mudança na vida não é inteiramente ruim ou inteiramente boa, a tecnologia nos trouxe inúmeras praticidades, de modo que o conhecimento acerca do mundo pode ser difundido e alcançado de modo bem mais acessível que nos outros períodos da historia humana, isto é, para pessoas cuja classe social permite essa acessibilidade. Porém, há algo que pode ser notado facilmente quando observamos redes sociais como o Facebook, por exemplo.

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charge: André Dahmer

Em assuntos polêmicos, que invariavelmente orbitam sobre temas políticos, as pessoas estão cada vez mais fechadas em guetos, onde emitem e recebem opiniões iguais ou parecidas com as suas, isso pode ser lembrado nas últimas eleições: “Pô, eu não conheço ninguém que votou no candidato X, como ele(a) pode ter ganhado?” De modo que ouvir uma opinião diferente pode causar ranço ou raiva; e o que fazemos muitas vezes é excluir a pessoa, deixar de segui-la ou discutir com ela em sua página pessoal como se ela tivesse nos ofendido diretamente. O problema é que isso gera uma polarização de opiniões muito esquisita.

Veja bem, se posicionar em um debate político ou em um assunto polêmico não tem nada de errado e, na maioria das vezes, passar a impressão de alguém “isento” de tais assuntos, “acima do bem e do mal” ou “diferentão”, não passa de prepotência, ignorância ou covardia.
Também, ignorar a realidade relativizando-a ou reduzir as “verdades” a mero discurso, não trará outro destino além do ostracismo ou do ceticismo niilista.

Porém, quando não conhecemos ou não entendemos as teorias, retóricas ou discursos de nossos “adversários”, tendemos a brigar contra um espantalho. Isto é, achamos que conhecemos as ideias que odiamos, mas na verdade nosso cérebro, que tende a economizar energia para outras funções da vida, nos engana e define o mundo como preto e branco, desse modo ficamos mais sossegados, pois sabemos exatamente o que fazer ou o que dizer para acabar ou desmoralizar nossos inimigos e não é preciso pensar demais para entender a complexidade dos problemas.

Entretanto, vamos pensar no cenário da “arena política”: diferente do que o senso comum diz, em TODOS os tipos de regimes de governo, as negociações políticas se fizeram e se fazem presentes, isto significa: debater opiniões contrárias, segurar a raiva e ouvir o discurso de quem pensa de modo diferente e claro, cumprimentar aquele filho da puta que você não gosta e discutir problemas com ele, enquanto você tinha vontade de estrangulá-lo. E isso existe em todos os tipos de regime: liberal, socialistas, nacionalistas, autoritários; em menor ou maior medida, como naquele ditado: “política é pra quem tem estômago”.

Bem, ter uma atitude diferente assim no dia-a-dia não é exatamente uma coisa fácil, confesso que pra mim isso é difícil também. Mas é algo interessante para exercitarmos nossa capacidade de pensar sobre a realidade e entender a complexidade das coisas. Porém, não estou falando que devemos ser super tolerantes e aceitar provocadores, pessoas desonestas ou gente mau-caráter – nem todo mundo consegue “dar a outra face”. Mas sim, aquela pessoa que emite uma opinião diferente da sua, porém lúcida, sóbria ou, no mínimo, racional e acima de tudo terá algo para acrescentar seu entendimento das ideias opostas.

Então, a partir disso, tentemos seguir novamente aquela pessoa que deixamos de seguir por raiva do que esta postava, ler debates em pages/grupos ou adicionar alguém do mesmo tipo, seja ele: fascista, comunista, liberal, cristão, budista, vegetariano, entre outros na área do conhecimento dos assuntos que gostamos de discutir ou achamos que sabemos o suficiente. Isso será benéfico não para “nos tornarmos pessoas melhores”, mas para entendermos as nuances da realidade e construirmos argumentos mais racionais e sólidos da próxima vez que discutirmos com alguém na faculdade, no trabalho, na reunião de família ou no boteco.

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