O Poder da Ideologia

Algumas pessoas subestimam o papel das instituições na dominação humana.
É preciso sempre relembrar o poder que as subjetividades (nesse caso, a dizer: Estado, Arte, Direito, Igreja, etc.) humanas tem sobre a ‘ordem das coisas’.

Vez e outra aparece ou um guru de seita ou um simples fariseu burguês reprodutor de ideologia para repetir as velhas asneiras que já foram rebatidas pelos clássicos do pensamento progressista – a missão iluminista do desenvolvimento social já foi abandonada pela classe dos seus antecessores e agora, as melhores ideias, mesmo quando vindas de homens insossos para os dias atuais, pertencem aos que levarão essa missão a cabo.

Se no passado Eugene Duhring, professor universitário, e mesmo outros idealistas alemães (os “santos”) tomavam para si a verdade absoluta e universal e “refutavam” tudo o que veio antes, mas ainda faziam um esforço racional para tentar dar veracidade a tal proeza, no presente os equivalentes desses tão pouco se importam com a razão – é a mera sujeira retórica que sobra pros sofistas modernos, de baixa qualidade por sinal.

O atual guru de seita e Rasputin brasileiro – Olavo de Carvalho, já disse em seus cultos que a ideia de ‘luta de classes’ não existe na prática – afinal, se fosse verdade, não haveriam ‘períodos de paz’ na história da humanidade. Seria curioso achar na história, tais períodos de paz universal ou mesmo, em específico, na Europa. É sabido das revoltas desde de escravos da Antiguidade, como Espartacus, até de camponeses anabatistas rebelados contra a Reforma, na Idade Média – sobre a Idade Moderna é desnecessário comentar, afinal foi a Era das Revoluções.

Se por um lado a ideologia promove a justificação da ‘ordem das coisas’, pois elas ‘são como são’, por outro lado te dá promessas de um futuro melhor, próximo do horizonte, como a possibilidade de ascensão social, pelo ‘empreendedorismo’, ou distante, mais absolutamente fantástica – o céu.

As promessas religiosas – fantasmas de um mundo antigo e distante que oprimem como um pesadelo a mente dos vivos, ainda sobrevivem em tempos cada vez mais materialistas e avançados cientificamente.

Já as promessas contemporâneas de ascensão social por meio da ‘atividade empreendedora’ possuem alguns raros casos de comprovação concreta. Em tempos de liquidação de direitos básicos nas democracias liberais, é comum ver como pipocam as propagandas do mercado financeiro – esse ambiente “democrático” e justo com quem ‘trabalha’.

Soma-se a isso a Arte que, em geral, é tida como alívio espiritual para uma vida dura. Por exemplo, não é difícil perceber como o conteúdo das letras do rap brasileiro mainstream (com exceções, obviamente) atual ecoam em tom quase uníssono um sentimento vislumbrado de ‘vitória’ sobre os racistas e sobre o status quo.

A dominação objetiva e concreta é a verdadeira dominação. Mas ela não se sustenta sozinha. Ela necessita da dominação subjetiva para se reproduzir e seus tentáculos são inúmeros. Não é possível compreender o porque de tantas pessoas estarem inertes e alheias às dominações mais vis que existem, sem enxergar os mecanismos que fazem a roda do rolo compressor dos poderosos girar sobre às nossas cabeças.

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