Pros mortos sem protesto, flores em memória

A grande mídia retratou de forma aterrorizante a notícia da morte de 5 policiais brancos nos Estados Unidos da América por um militante negro, Micah Johnson, durante um protesto. Micah Xavier Johnson era um veterano do exército, sem antecedentes criminais e planejou um ataque contra policiais durante um protesto contra a violência policial nos EUA. Durante as 3613E98500000578-3680988-image-m-6_1467991479096negociações, após a alegação da polícia de que não prosperariam, ele foi morto por uma bomba explodida por um robô lançado.

Nomes de homens negros mortos pela polícia como Philando Castile (morto numa blitz), Alton Sterling (imobilizado e alvejado a queima roupa), Trayvon Martin (morto por “andar de modo suspeito”), Eric Gamer (camelô estrangulado durante uma imobilização), Freddie Gray (levado em um camburão, teve a coluna fraturada e morreu no hospital) e tantos outros que não seria possível listar todos aqui, marcam os protestos nos Estados Unidos.

No Brasil, no dia 9 de julho, morreu Joselita, mãe do garoto Roberto, que foi assassinado pela polícia no ano passado. Ela morreu por conta de uma profunda depressão que acarretou em anemia e pneumonia, causando depois uma parada cardiorrespiratória. Betinho, seu filho, foi morto a tiros quando saiu com os amigos Wilton Esteves  (20 anos), Carlos Eduardo Silva (16), Wesley Castro (25), e Cleiton Corrêa (18), para comemorar seu primeiro salário, em um Palio branco, voltando de uma lanchonete. O carro foi alvejado por 111 tiros. A mãe do garoto, segundo os familiares e conhecidos, era animada, adorava festas e estava bem profissionalmente antes da morte do filho.

joselita
foto: oglobo

Os policiais, que alteraram a cena do crime para forjar resistência, estão em liberdade e, segundo o jornal OGLOBO, o ministro Nefi Cordeiro concedeu a eles habeas corpus, alegando que o pedido de prisão temporária feito pelo juiz não foi fundamentado adequadamente. O processo que culminaria na expulsão dos policiais continua moroso e eles seguem na corporação em funções administrativas, alegando que nem sequer atiraram no carro.

Para alguém branco de classe média essa situação seria inimaginável e certamente a cobertura da mídia seria bem diferente.

De um ponto de vista sociológico é interessante observar o que se passa nos EUA e fazer paralelos com certos panoramas brasileiros. Nossa sociedade tem muita semelhança com a deles, muito também, por conta da influencia do neocolonialismo norte-americano nos países da América Latina, efeito colateral da velha Doutrina Monroe. E uma das grandes mazelas que se vê lá e cá, é o genocídio dos negros. A escravidão “acabou” há algumas gerações, mas a situação dos negros não se tornou muito diferente, se comparados ao resto da sociedade, no passar dos anos. Alguns ainda podem almejar posições de respeito – lugares historicamente de soberania dos brancos. E em países como os EUA (cabe lembrar, devido à capacidade produtiva e consequentemente econômica monstruosamente maior que a do Brasil) possuem oportunidade de alcançarem empregos um pouco melhores que aqui e padrões de consumo superiores também.

chacina
foto: g1

Nos dois países, ainda não são representados na política institucional, os mínimos direitos que conseguiram são contestados por pessoas que acreditam na “meritocracia” ou os que simplesmente acham que as minorias (sociologicamente) estão com “direitos demais”. Muito mais desumano que isso é o massacre que sofrem em sua própria nação e pelo seu próprio Estado, devido sua condição social, principalmente. O caso supracitado foi uma chacina cometida por agentes do estado, contra rapazes que nem criminosos eram e por motivos que nem os assassinos ousaram dizer.

Nos EUA, enquanto ocorrem inúmeros casos semelhantes, um homem resolve responder à altura, fazendo o mesmo que fazem com sua etnia há muitas décadas e, após ser morto, é retratado como um extremista, radical ou insano, pelos jornais, inclusive brasileiros. Obama chamou o ataque de perverso, desprezível e premeditado; para os que sentem na pele o que é o Estado norte-americano oprimindo e aniquilando seus semelhantes todos os dias, ele foi considerado um mártir. Isso no país em que nos anos 40 – enquanto na Rússia racismo era considerado crime com pena capital – os negros não podiam frequentar o mesmo lugar dos brancos, essa era a política de Estado do país da democracia.

É lamentável o fato de que uma notícia recebeu maior atenção da mídia do que a outra e os motivos são bem óbvios. A grande mídia brasileira é racista e faz vista grossa nos crimes do Estado contra seu povo, além disso essas mortes já se tornaram algo tão cultural que não geram comoção das grandes empresas de publicidade e comunicação. A tragédia desses dois cenários, Micah Johnson e Joselita, são sintomas de uma sociedade doente em seu âmago, onde uns podem ser cidadãos e viverem uma vida satisfatória na medida do possível, enquanto outros apenas sobrevivem em meio a uma espécie de campo de concentração invisível ou guerra não declarada.

https://www.youtube.com/watch?v=0SCVoILUe40

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