Um dia histórico

Nesse domingo o plenário da câmara dos deputados decidiu pelo impedimento da Presidente da República pelo crime de responsabilidade fiscal e a maioria votou pela abertura do processo contra Dilma Rousseff. Na ocasião em que os deputados do nosso país deveriam julgar o tal crime (as famigeradas pedaladas fiscais), o que mais se viu foram parlamentares que “dedicaram” seus votos a: suas famílias, suas terras natais, religiões, a pauta LGBT, a maçonaria, ao café (?), aos corretores de seguro, da perseguição aos médicos, a Israel (!), aos militares de 64 (?!) e até Olavo de Carvalho (…). Enfim, pra quem tem o mínimo de bom senso, esses pronunciamentos foram no mínimo ridículos e não foram dignos de “representantes do povo” em um dos momentos mais sérios das últimas décadas na política brasileira.

A insatisfação das pessoas com a atual situação econômica e política no Brasil faz com que não fique claro para o povo o caráter grave das consequências que o possível afastamento de Dilma pode acarretar para a democracia brasileira. Também é contraditório o povo que, em 2013, protestou contra “tudo que está ai”, contra “todos os corruptos”, pela “mudança”, apoie esse ato orquestrado pelos mesmos corruptos de que as massas estavam fartas.

Uma breve lida na história do nosso país nos mostra que a elite brasileira nunca teve muito apreço pelo liberalismo político, apesar de pregar o liberalismo econômico, no entanto, nossa democracia remanescente de uma ditadura militar sanguinária, não pode ser desprezada nem por quem se considera de direita ou esquerda. A questão em curso no Brasil, não é apenas o apreço pela sua pessoa ou satisfação com o governo de Dilma Rousseff, mas um manifesto ataque contra um sistema de governo presidencialista que tem suas poucas décadas de idade até agora. Os gritos de “Fora Dilma”, “Fora PT”, entre outros, pelos parlamentares no pronunciamento do voto, são sintomas de um processo de Impeachment que é claramente um processo político onde não está sendo julgado ataque aos princípios da Administração Pública, mas sim interesses partidários de urubus que aguardam o resultado desse circo midiático e político para se aproveitar das sobras do nosso “Estado de Direito”.

Certamente se Dilma for afastada, o PT vai colher o que plantou nesses últimos anos; em nome da governabilidade, se aliaram a figuras como Paulo Maluf, Fernando Collor e José Sarney, representantes de grupos que atualmente votam contra seu governo e jogam terra no sepulcro do projeto desenvolvimentista. Quase nunca atenderam as demandas dos setores de esquerda que clamavam por políticas sociais redistributivas e também é contraditório e irônico dos petistas reclamarem da possibilidade de Michel Temer assumir a presidência, tendo em vista que quem votou na Presidente em sua reeleição estava certo de que seu vice era Temer. No entanto, apoiar uma ação política dessa magnitude, conduzida e apoiada por grupos representantes de interesses de latifundiários, de bancos, de investigados em casos de corrupção, de entreguistas demagogos e presidida por um “gangster”, réu no Supremo Tribunal por corrupção, é um erro grave.

O Partido dos Trabalhadores ainda pode vencer no senado por maioria simples e a Presidente pode se livrar do processo de impeachment (o que parece difícil), porém o que aconteceu hoje em nossa política institucional não é algo que merece pouca atenção dos brasileiros e certamente será lembrado nos nossos livros de história como algo no mínimo contraditório e vexatório.

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