4 de julho de 2019

Qualquer cor que você quiser e o novo mundo

Esses dias vi uma propaganda da megacorporação Skol sobre diversidade. Na mensagem se regozijava a pluralidade e a existência de ‘diversas cores’, como símbolo da diversidade.

E isso me lembrou de algo relacionado na cultura pop. Em 1972 a icônica banda britânica Pink Floyd produzia seu disco mais vendido – Dark Side of The Moon. É um álbum conceitual, sendo assim, existe um todo narrativo do começo ao fim, seja na harmonia ou na temática, e possui letras que tratam desde de assuntos mais subjetivos e intimistas até problemas sociais como a forma que a sociedade trata os “loucos”.

No meio da obra, uma faixa curiosa se destaca por não conter nenhuma letra e, ainda sim, pode-se dela extrair dali reflexões infelizmente ainda atuais e possíveis interpretações. Any Colour You Like (na tradução, algo próximo de: Qualquer cor que você quiser) contém no nome uma referência a uma frase de Henry Ford, sobre sua produção de carros, algo como: “Você pode escolher qualquer cor que quiser, desde que seja preto”.

A frase retrata uma ironia de um dos mais famosos burgueses da história, aquele que apoiava as políticas antissemitas do III Reich, inspirador de Hitler e grande influenciador no método de produção industrial das sociedades capitalistas. A ironia expressava uma contradição que se tornaria própria das sociedades liberais contemporâneas – a liberdade de escolha e sua representação sob ‘várias cores’. Nas palavras do compositor Roger Waters dar “uma falsa impressão de escolha, quando não há nenhuma”.

Fonte: Twitter

Me incomoda o modo de agir da militância identitária e dos progressistas liberais, que dá primordial importância ao corpo e a linguagem no que diz respeito a sua tentativa de lutar contra o status quo

Isso vêm da sua epistemologia – se é que se pode chamar o pós-estruturalismo de epistemologia, quando é quase uma profissão de fé do irracionalismo, e da herança existencialista em tais movimentos… mas isso é assunto para outra ocasião.

O existencialismo e o irracionalismo, filosofias burguesas que assumem na história até os dias atuais diversas variações, têm profunda relação com o modus vivendi dos universitários das camadas médias e até baixas que confiam de modo quase religioso o poder que as intervenções do seu próprio corpo, da linguagem ou mesmo da arte podem causar – em alguma medida, “chocar” e gerar reflexão no público.

Não é como se manifestações não causassem nenhuma consequência imediata nos receptores (e as vezes, isoladas de um contexto, podem ser até prejudiciais). O problema é que a estratégia que é empreendida, têm como base um método filosófico e uma visão de mundo que rejeita qualquer visão totalizante e mesmo de conhecimento acumulado, sobrando apenas o discurso. Oras, “pau que bate em Chico, bate em Francisco”, isto é, é inevitável que a forma como tais movimentos enxergam a práxis não tenha consequências diretas na própria efetividade de seu discurso

A suposta pluralidade não necessariamente representa algo palpável em última instância. E há o fato de que pode ser ainda que essa impressão causada pela aparência esconda o seu contrário: a uniformização. A cultura da humanidade é muito maior do que se criou no Ocidente e os mercados não estão interessados em preservar as identidades de cada cultura, mas em se expandirem para onde for possível.

Não ignoro fatos como: a linguagem realmente cumpre papel importante na subjetividade das pessoas discriminadas – o preconceito se exprime por meio dela e é sim interessante atenuar isso de alguma forma. Nem caio no romantismo torpe dos reacionários que defendem a tradição como um fim em si mesma e que com isso ignoram todo o preconceito que as culturas – principalmente as de religião monoteísta, seguem. Mas o preconceito é uma via de duas mãos. Tanto existe perante a existência de um indivíduo ou uma raça, como existe entre um punhado de países e sua cultura contra todos os outros.

É tacanho ignorar a dimensão concreta de que a própria liberdade – conceito que não possui um valor absoluto fora do tempo e do espaço – na maioria dos casos, não encontra correspondência real fora das diversas ‘cores’ que essa possa assumir em aparência na sociedade liberal. 

Parece que existem muitas ‘cores e valores’ e que nosso modo de viver ocidental só pode ser a melhor e ideal forma de vida para um ser humano, não é mesmo? Bem, a realidade é mais dura. O corpo por si só não muda nada, o discurso isolado tampouco. A cultura é um processo complexo e dialético, mas as liberdades, as diversidades e a pluralidade só podem ter direito a existir em um novo mundo – um que elimine as forças reais que impedem o progresso humano e toda diversidade.

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Opinião, Sociedade 0 Replies to “Qualquer cor que você quiser e o novo mundo”